DEVOCIONAL - T2 | E24

Se Deus Quiser!

 

“Desde a eternidade, eu sou Deus; não há quem possa livrar alguém de minha mão, não há quem possa desfazer o que eu fiz.” Isaías 43:13

Posso até estar errado, mas tenho a impressão de que você, como eu, já repetiu algumas vezes a expressão “Se Deus quiser…!” Ela geralmente é dita num contexto em que tentamos nos agarrar ao menos a um fio de esperança de que tudo terminará bem. Se a expressão não estiver no início da sentença, da frase, como uma forma de indicar que ainda há Alguém que pode agir e resolver o problema em questão, é dita ao final, pelo ouvinte que acredita numa solução, ainda que dependa de um milagre. “Se Deus quiser.”

Dizemos ao enfermo, perto do fim de uma visita ao hospital. Dizemos olhando nos olhos, e quando possível, segurando as mãos de quem está convalescendo, como forma de mantê-lo animado com a anunciada recuperação. Repetimos a quem está ansioso com a chegada dos resultados de exames médicos que foram feitos recentemente.

Diante do envelope ainda fechado, um “se Deus quiser” inicia nossa expressão de conforto que vai terminar em “não há de ser nada grave e você vai ficar bem!”. “Se Deus quiser aquela vaga será sua”, dizemos a um amigo ou familiar que está saindo para mais uma entrevista de emprego, “Se Deus quiser, você vai passar no exame do vestibular” – repetimos a um filho que se dirige angustiado ao portão de acesso ao local das provas.

E é verdade! “Desde a eternidade, eu sou Deus;” diz o Senhor, “não há quem possa livrar alguém de minha mão”, continua. Uma outra versão da bíblia termina esse verso dizendo: “agindo Eu, quem o impedirá?”. Em outras palavras o Senhor mesmo está afirmando que se Ele quiser, tudo será feito – mas será como Ele quiser. Desde a eternidade foi assim, e assim será para sempre. E creio que aí esteja nosso maior problema, ou talvez a nossa maior dificuldade.

Aqui em casa, por vezes nos sentamos em frente a TV para assistir algo juntos. Devido a correria do trabalho e estudo, nem sempre isso é possível, mas acontece. Geralmente assistimos aqueles programas de reformas relâmpago que os profissionais e apresentadores realizam em casas escolhidas especialmente para isso. Interessante é a confiança dos donos da casa no poder de decisão e escolha de quem está realizando a reforma. Eles saem de casa, entregam as chaves, disponibilizam uma quantia razoável de dinheiro e, de vez em quando, aparecem para receber notícias do andamento das obras e descobrir que precisarão investir um pouco mais na reforma, por conta das surpresas que vão surgindo.

Mas há algo que acontece sempre, ao final do programa. Quando os moradores chegam para ver como tudo ficou, são tomados pela alegria de encontrar uma casa totalmente diferente da que entregaram. As mudanças são muitas, e de tão incríveis, estimulam os donos a dizer que já não é mais a mesma casa. Por acreditarem na responsabilidade do programa e no profissionalismo dos apresentadores, são contemplados com uma obra de arte em forma de moradia.

Gosto de pensar na minha vida como uma casa que precisa ser reformada. Tenho consciência da necessidade de rever a instalação elétrica, porque ela já está colocando em risco a segurança de quem vive ali. Percebo avarias na estrutura do imóvel e lembro que preciso fazer algo urgente para impedir a queda. No entanto, sempre que olho para ela, de fora para dentro, sou tentado a estabelecer, como prioridade, questões que envolvem a fachada, a entrada e o jardim. Ainda que o sistema hidráulico não funcione mais e haja inúmeras goteiras que me perturbam o sono sempre que chove, planejo adquirir um quadro novo que vi numa loja de produtos de terceira ou quarta necessidade. Descubro que não tenho condições de resolver sozinho e que devo sair em busca de um profissional habilitado para administrar a reforma.

Conheço alguém. Aliás, conheço o melhor profissional. Ele não tem um programa na TV, mas é altamente qualificado. Trabalha de maneira simples e discreta. Tem tanta consciência de suas habilidades que não costuma fazer propaganda das reformas que já concluiu. Seus clientes mais fiéis é que o fazem. Indicam seus serviços por onde passam, com o orgulho te terem sido tão bem atendidos. “Quem resolveu as coisa lá casa”, dizem sempre com muita alegria e satisfação, “foi Deus! Ainda não encontrei quem fizesse um serviço melhor que Ele”. Mas preciso ter consciência de uma coisa: no momento em que decido entregar-Lhe as chaves, devo saber que pode decidir mudar tudo.

Finalmente Ele chega. Começa verificando a fiação, os disjuntores  e os terminais elétricos de meu sistema nervoso. Examina a funcionalidade dos tubos e o escoamento das minhas emoções. Isso não me incomoda tanto. Eu já sabia que algo do tipo que precisava ser feito. Mas logo Ele começa a derrubar as paredes. Arranca boa parte do piso e joga fora uma quantidade enorme de ítens com os quais eu estava apegado havia muito tempo. Enche caçambas e mais caçambas de desejos e sonhos que eu jamais tiraria do lugar, mas que Ele considera estorvo e entulho. Enquanto eu me preocupava com detalhes do jardim, do quintal e da fachada, de uma vida de mentiras e fingimentos, Ele parece estar comprometido em transformar completamente o interior. Mas por quê? O que Ele pretende com isso, afinal?

Porque desde a eternidade Ele é Deus! No momento em que eu permiti que Ele fizesse a reforma, então Ele fará o “ que Ele quiser”, e não há quem possa desfazer o que Ele decidir fazer. Não há quem posso impedi-Lo de cumprir a Sua vontade e terminar a obra, a não ser eu mesmo, que contrariado com o início das obras de reforma, tomo de volta as chaves e peço para que Se retire, com Sua equipe de trabalho. Nesse instante, já não vale mais, ao menos para mim, a garantia da expressão “Se Deus quiser”, porque Ele até quiz, mas eu decidi não querer.

Senhor, quero me entregar em Tuas mãos. Por favor, dá-me força e entendimento para aceitar a Tua vontade para minha vida, pois tenho certeza que “Se Tu quiseres, serei plenamente feliz!”. Amém.

Quem Escreve:

Marcílio Egídio

Esposo, pai e pastor – nessa ordem. Eterno aprendiz da arte de servir. Um colecionador de bons amigos.